terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Você pode Comungar?

É interessante o modo como algumas coisas passam despercebidas em nossa vida. É preciso, às vezes, nos colocarmos do lado de fora de uma situação para podermos ver e ouvir com mais clareza o que do lado de dentro não é possível.
https://www.google.com.br/search?q=comunh%C3%A3o&biw=1366&bih=643&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ei=o-raVLblLNOIsQT7-oKAAQ&ved=0CAYQ_AUoAQ#tbm=isch&q=comunh%C3%A3o+eucaristica&revid=1003401630&imgdii=WtUmi2Wsxine2M%3A%3B9P32YGsDiQbhmM%3BWtUmi2Wsxine2M%3A&imgrc=WtUmi2Wsxine2M%253A%3BvGkC538ZuR55iM%3Bhttp%253A%252F%252F3.bp.blogspot.com%252F-KX5wvJXKbYM%252FUzXEh6jzGDI%252FAAAAAAAABrg%252FiY783cszQm4%252Fs1600%252Fcatequese-do-leigo-sacramento-da-eucaristia.png%3Bhttp%253A%252F%252Fwww.catequesedoleigo.com.br%252F2014%252F03%252Fcatequese-sacramento-da-eucaristia.html%3B1000%3B667

Certo dia, em uma missa festiva, ouvi um jovem dizer: “Que se aproxime do altar apenas as pessoas que estiverem preparadas para receber a comunhão”. Por muitas vezes eu já havia ouvido esse tipo de recomendação, porém nunca havia pensado no quanto ela é excludente e imprópria para uma Celebração Eucarística. Por muito tempo também havia ouvido o canto, que se seguiu após o pronunciamento do jovem, cujo refrão dizia “Só tem lugar nesta mesa pra quem ama e pede perdão. Só comunga nesta ceia quem comunga na vida do irmão”. Porém, nunca havia percebido que a letra dessa música proporciona-nos saber a nossa localização no Reino que tanto buscamos.
O breve comentário feito pelo rapaz – que por sua vez aparentou nunca ter refletido sobre o peso de suas palavras – naquela ocasião em especial, juntamente com a reflexão sobre a canção entoada no mesmo dia, fez-me refletir sobre o que é estar preparado para comungar. Mas, afinal, o que é e quem está preparado?
De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, pode comungar quem estiver plenamente incorporado à Igreja e em estado de graça, além de possuir o espírito de recolhimento e de oração, a observância do jejum prescrito pela Igreja e ainda a atitude corporal (gestos, trajes) como sinal de respeito para com Cristo. (CIC, 1385–1389; 1415). É aí que está o problema. Se todos os cristão católicos seguissem a risca o que diz o Catecismo teríamos dois caminhos: 1) as pessoas não católicas nos teriam como exemplo de fraternidade e caridade, sendo o mundo bem melhor (não estou colocando a culpa do que acontece em nosso planeta sobre os católicos); ou 2) as empresas que fornecem hóstias fechariam por falta de consumidor.
Parece exagero de minha parte, e talvez seja. Porém, o que disse o jovem rapaz antes do Rito da Comunhão pode soar de forma equivocada para uma pessoa que pela primeira vez sentiu-se chamada a participar da Santa Missa. Talvez, uma pessoa que nunca teve a oportunidade de frequentar um encontro de catequese, ou que por vários motivos nunca teve a chance de participar de uma Celebração, possa está mais bem preparada do que aquele (músico, cantor, leitor, ministro da Eucaristia e até sacerdote) que está a “serviço do altar” apenas para se mostrar para os outros e se esquecem do que diz o Nosso Senhor: “Por esse motivo, quem comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine, pois, cada um a si próprio, e dessa maneira coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem ter consciência do corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação”. (1 Cor 11, 27-29).

A resposta à pergunta “Quem pode comungar?” vem do simples refrão da música que foi mencionada acima quem ama e pede perdão”. O amor e o perdão só vêm de quem possui humildade e vontade de ser bom, de ser santo; é dessa forma que teremos nosso lugar na Ceia do Senhor. Só Deus pode julgar quem é ou não digno de recebê-lo. Só a consciência de cada ser humano é capaz de fazê-lo se aproximar ou não do Santo Altar. O lugar para se orientar os cristãos sobre a comunhão e o que diz a igreja sobre ela é na catequese, e não na Missa da forma como o foi.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Caminho para a Páscoa

A grande meta da quaresma é a Páscoa - festa central do cristianismo, ponto alto do ano litúrgico. Neste tempo assumimos percorrer com Jesus, o caminho da provação e da cruz e vamos recebendo a força e a alegria do seu Espírito para proclamarmos a vitória da vida, enquanto lutamos contra todas as forças de violência, de injustiça e morte que, dolorosamente persistem no mundo. Cada celebração deve ser uma forte experiência desta caminhada pascal, para que possamos fazer de nossa vida uma páscoa contínua.

1. Caminhada catecumenal: A quaresma é, por excelência, um tempo batismal. A liturgia da Palavra da quaresma do Ano A constitui-se num valioso itinerário de fé e adesão crescente, consciente e livre, ao projeto de Jesus. Nos dois primeiros domingos, a liturgia apresenta Jesus como àquele que vence o mal, e por isso é glorificado por Deus no Tabor, antes mesmo de Ele enfrentar a "hora das trevas" e, nos outros domingos, as grandes "catequeses batismais" de João ( cap.4, 9 e 11). As primeiras leituras, com textos do AT narram fatos significativos da História da Salvação (pecado de Adão, vocação de Abraão, Moisés e a água da rocha, Davi e a visão dos ossos em Ezequiel) e formam um todo catequético em sintonia com os evangelhos. Com textos de grande valor teológico das cartas de Paulo, as segundas leituras também apresentam certa ligação com as primeiras leituras e os evangelhos. Nossa vida torna-se, então, uma oferta de louvor, um sacrifício espiritual que apresentamos continuamente ao Pai, em união com Jesus, o servo pobre e sofredor. E, assim, por ele, com ele e nele o Pai seja louvado e glorificado.

2. Caminhada de conversão: Mais do que uma simples preparação da Páscoa, a quaresma constitui um ensaio da vida nova no Espírito:
·         Tempo de romper com todas as expressões de mal que existem em nós, sepultando o "homem velho";
·         Tempo de abrir-nos à Vida sempre nova que brota da Cruz;
·         Tempo de tornar-nos uma nova criatura, revestindo-nos de Jesus Cristo;
·         Tempo de converter-nos ao projeto de Deus, ouvindo e acolhendo sua Palavra, que nos propõe "buscar primeiro o Reino de Deus e a sua justiça"(Mt 6,33);
·         Tempo de renovar e reavivar a opção de nossa fé feita em nosso batismo, no desejo de um novo recomeço no seguimento como discípulos do Senhor. Dedicando mais tempo e densidade à oração tanto pessoal quanto comunitária fortalecendo as razões de nossa esperança;
Tomando uma atitude contra o consumismo, assumimos o jejum do autodomínio sobre nossa alimentação, nossas palavras, nossos sentimentos. E, sobretudo, com a prática do jejum verdadeiro, ou seja, a prática da justiça e da misericórdia, base da verdadeira oração, retomamos o compromisso de "volta ao primeiro amor" (Ap 2,4), na relação de aliança com Deus.

3. Conversão para a fraternidade: Como passo fundamental na caminhada pascal, a dimensão comunitária da quaresma é assumida por nós pela Campanha da Fraternidade: que sempre nos pede conversão e solidariedade em situações bem concretas de nossa realidade. " A solidariedade é para os povos o que a ternura é para as pessoas" ( D. Pedro Casaldáliga).
Padre Gian Luigi Morgano

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Tempo Comum

ILUMINADOS PELA PALAVRA
            O início do Tempo Comum acontece com a apresentação de Jesus Cristo como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Evangelho). Apresentação que dá continuidade ao contexto da Epifania, da manifestação de Jesus Cristo ao mundo. É também continuidade do episódio batismal, ressaltando o testemunho de João Batista de que Jesus é o Filho de Deus, o enviado de Deus para salvar o mundo inteiro (Evangelho). A Palavra deste 2º Domingo, no entanto, concentra-se no contexto da Salvação universal realizada por Jesus, oferecendo-se como sacrifício para fazer a vontade do Pai (salmo responsorial). Ele é o servo profetizado por Isaías que levará a Salvação divina aos confins da terra (1ª leitura) e aquele que tira o pecado do mundo (Evangelho). Ainda no contexto da Salvação universal, Paulo dirige sua carta a quem é convocado à santidade em todas as partes do mundo (2ª leitura).
            Na Bíblia, encontramos uma corrente teológica que considerava a Salvação restrita ao povo hebreu e a entendia como a reunificação de Israel. Embora presente em Isaías — “que eu recupere Jacó para ele e faça Israel unir-se a ele”
(1ª leitura)— a mesma profecia evidencia que a missão salvadora do servo é a de se tornar luz para todos os povos da terra (1ª leitura). Jesus é este servo, aquele que recebeu e assumiu a responsabilidade de realizar o projeto salvador no mundo (salmo responsorial) para todos os povos. João Batista dá testemunho dessa realidade (Evangelho).
            O termo “testemunho” ou “testemunha” significa originalmente “alguém que viu” ou então, “alguém que fala daquilo que viu”. O Evangelho deste Domingo não diz que João Batista refere-se a Jesus como alguém que foi batizado por ele, mas que viu o Espírito Santo pousando sobre ele e consagrando-o
(Evangelho). Fato que provoca mudança no conceito de Batismo. Não mais um rito de purificação exterior e interior, como diziam os essênios, nem só purificação do coração, como pregava João Batista, mas o Batismo como relação pessoal com o Espírito de Deus. A diferença está na presença ativa do Espírito Santo que, no Batismo, pousa sobre quem é batizado.
            É a partir da experiência do Batismo de Jesus, que todos os batizados participam da filiação divina. Jesus é o Filho de Deus, mas não só. É também testemunhado por João Batista como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Evangelho) e, enquanto tal é o Salvador, o servo que ilumina o mundo com sua Salvação (1ª leitura). Ao apontar Jesus como Cordeiro de Deus, João Batista evoca nos ouvintes o significado do Cordeiro Pascal para o povo de Israel, que com seu sangue, tingido nas portas dos hebreus, libertou e salvou o povo da escravidão do Egito. Participar da Salvação, diz São Paulo, é participar da Páscoa de Jesus Cristo (Rm 6) que, ao se fazer (com seu sangue) sacrifício para realizar a vontade do Pai (salmo responsorial), nos liberta da morte, nos salva e nos torna filhos e filhas de Deus.